Tempos de Guerra

Já era noite quando Eduardo chegou. Logo depois de trancar a porta, olhou nos armários e na geladeira procurando algo para comer, mas fez com que sua barriga parasse de reclamar e seguiu para o corredor onde se encontravam todos os quartos da casa. Foi quando um trovão assolou seus ouvidos, fazendo com que suas mãos viessem rapidamente ao encontro deles. Olhou para trás em alerta, como se houvesse alguém lá. Nada, além da cozinha.

Pôde ver a luz piscar duas ou três vezes enquanto encarava o pequeno cômodo alaranjado. Começou a se lembrar de tempos mais difíceis e deixou que as vozes dentro de sua cabeça tomassem toda a casa. Agora um garoto, com mais ou menos 7 anos, sentava-se na mesa à sua frente. Parecia triste – olhava para o chão, de ombros arqueados, e murmurava – Eles me chamaram de magricela… – De repente cresceu, agora tinha cerca de 14 anos e barba rala e mal delineada. Ele sorria de forma singela. Logo ficou corpulento, seus cabelos negros e lisos cresceram um pouco e sua feição já tinha marcas de seriedade. Dizia – Eu já disse que eu não importo com essas coisas… Eu vou me alistar, já está decidido. – Sua voz agora era grossa e encorpada, bem diferente da do garoto franzino que estava ali a pouco. Os olhos de Eduardo estavam fixos em uma mesa cheia de cadeiras vazias. Mas, eles viram aquele homem ganhar uma farda, uma boina e até mesmo uma estrela em seu peito. Tinha nele também um sorriso orgulhoso que tomava as pontas de seu rosto. Era um sorriso fixo, que com o tempo, em sua cabeça, ficou amarelo.

Ao fim do corredor, a cortina esvoaçou e permaneceu trêmula no ar, Eduardo se assustou, e viu na plantação emoldurada pela janela algo se mexendo que, antes mesmo da cortina descer, desapareceu na escuridão. O vulto fez seus pequenos olhos marejados cerrarem. Talvez seja Fome – pensou ele antes de seguir pelo corredor e adentrar o primeiro dos quartos – Querida? Onde você está? – disse baixinho, mas logo percebeu que algo estava às suas costas:

Aqui papai – era Carol com um lençol enrolado pelo corpo, formando um tipo de cupinzeiro de pano. Havia dela exposto apenas seus grandes olhos castanhos, arregalados na ponta. Estava sentada em cima de uma velha cômoda que ficava no meio de dois grandes armários. Quase que imperceptível ali.

Meu anjinho – disse Eduardo enquanto se acalmava – vá dormir, já é tarde…

O que foi aquele tiro? – perguntou Carol, ainda com a boca por baixo dos panos. Eduardo sorriu e se abaixou um pouco – Aquilo foi um trovão, não foi um tiro. Agora vá dormir que amanhã é domingo e nós finalmente vamos poder acampar juntos.

Seus olhos esbugalhados se encheram de ânimo. Parou para pensar que deveria ir logo para a cama para que a noite passasse mais rápido. Olhou para o chão e começou a descer lentamente.

Venha cá – disse o pai, abrindo os braços para pegá-la.

Não – curto e grosso – Eu consigo.

Enquanto se afastava, ele pensou – Como conseguiu chegar aí em cima tão rápido?

No chão a garota tocou a pontinha do dedo, mas a cômoda era alta demais para aquele pequeno pedaço de pijamas. Caiu de bunda, junto de seu lençol. Eduardo correu para assegurar que ela estava bem. Do emaranhado de pano surgiu uma pequena mão aberta, em alerta – Eu estou bem. Os lençóis começaram a descer e a feição de Carol entregou sua insatisfação por não conseguir pousar com o sucesso que imaginava que teria, mas isso não impediu o pai de dar uma bela gargalhada. Já não conseguia mais evitar pegá-la no colo para lhe dar um forte abraço, então o fez antes de colocá-la em sua cama, beijá-la na testa e dizer – Quem sabe na próxima, não é? – Ela acenava com a cabeça afirmando enquanto era coberta pelo pai, e perguntou – O Joshua vai voltar para a casa amanhã? Eles vão deixar que ele venha?

Eduardo sentiu algo apertar dentro do peito. Só conseguiu dizer – É claro, querida. Ele virá.

A garota fechou os olhos, ele se retirou e quando o trinco da porta bateu, algumas vozes do passado tomaram seus ouvidos – eram duas vozes masculinas, estavam alteradas e gritavam uma com a outra, mas logo elas foram interrompidas, agora por outra, presente, que vinha do fim do corredor. Era Mariana, sua outra filha, encostada no batente da porta, com cabelo bagunçado, olhos miúdos e cara amassada – Papai, eu preciso que me acorde amanhã às dez – parecia babar um pouco – Certo?

Claro, querida. Tem certeza que vai dormir até esse horário? – diz ele enquanto avistava outra figura parada ao lado da última porta do corredor, de braços cruzados. Era Rosana, sua mulher, mas mãe apenas de Carol.

Rosana vai querer que você nos acompanhe até a igreja de São Joshua amanhã bem cedinho – disse ele, ironizando enquanto via o desconforto de Rosana ao fundo. Ela retorcia os lábios e balançava a cabeça em reprovação. Com um sorriso cínico no rosto, Eduardo terminou – Eu posso apostar nisso.

– Vá dormir Mariana, eu mesmo te acordarei quando chegarmos da missa amanhã.

A garota se virou sem muito espanto e Rosana continuou:

Eu só quero que me diga quando quer fazer algo… Não pode ficar esperando que seu pai vá resolver seus problemas essa hora da noite, sendo que estou aqui o dia todo. Você precisa… – quando foi interrompida por um  – certo, certo… – bem baixinho, seguido de uma porta puxada para o embalo.

Rosana respirou profundamente e olhou para Eduardo aparentando cansaço. Parecia ter sido um dia cheio.

Venha cá, querida – disse ele enquanto andava a seu encontro, mas subitamente foi interrompido por duas batidas na porta da cozinha.

Pararam.

Ambos olhavam para a porta, quando ele decidiu dar alguns passos em direção a ela  – Quem é? – gritou Eduardo. Mas, nada foi respondido.

Voltou a bater. Duas vezes, forte como socos, mas apenas duas por vez.

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Mariana e Carol se puseram para fora de seus quartos, mas foram interrompidas por um sinal do pai, que andava nas pontas dos pés.

Rosana pensou em chamar o nome do marido. Não queria que ele fosse até lá, pois já era tarde. Tentou um alerta, mas foi abafada por duas novas batidas fortes.

A porta era de aço com um vidro bem grosso no meio. Apenas uma pequena cortina cobria a visão turva do vidro, mas ela não se mexia. Se ao menos Eduardo pudesse ver o que havia atrás dela. Não queria estar separado por apenas uma chapa metálica de seja lá quem fosse. Quando ele já não conseguia mais achar um sentido em abrir aquela porta, as batidas se intensificaram, foram duas, três, quatro seguidas e subiam. Os socos no aço faziam a casa estremecer. A maçaneta parecia querer cair, mas ela, em nenhum momento, foi usada. Assustados, afastaram-se todos, se encurralando no pequeno corredor enquanto as batidas cresciam, como um metralhar de balas de canhão que suscitaram em uma última que veio junto de um novo e enorme trovão, que durou longos segundos até calhar novamente no silêncio pacato da noite.

Todos estavam no corredor, de olhos fechados, atrás de uma barreira chamada Eduardo. Ele abriu os olhos vagarosamente enquanto soava de bicar. Seus braços e pernas estavam sendo agarrados pelas mulheres que protegia. Das vozes em sua cabeça, apenas a do garoto sobrou, ela dizia – Adeus papai – A cortina da porta finalmente sacudiu e Eduardo viu novamente alguém nas plantações alheias. Pensou – não era fome.

Na manhã seguinte, havia uma carta embaixo da porta, estava molhada e suja. Eduardo não havia se apercebido dela ali na noite passada. Constava uma foto amarelada e o nome “Joshua” escrito em tinta preta, que já se dispersava na superfície empapada. Em um primeiro vislumbre, apenas algumas palavras eram visíveis, mas elas já bastavam – Serviu com honra e bravura até seu último dia.

Eduardo desabou.

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Texto e Arte: William Lopes