Velejar

Hoje parece um bom dia para velejar dentro do pântano. Por lá existe um riacho. Talvez não caiba meu barco, mas vamos lá ver. O casaco chora na umidade da floresta, me abraça forte e seguimos, de musgo em musgo, até o riacho, que está alto, esbelto e bonito. Quem sabe um pulo? Será que ele deixa? Parece rebelde, com a cara fechada.

A água é fresca, mas está violenta. Tenho de acalmar o barco, ele é tímido, coitado. Tem medo de coisas rápidas. Vamos naquela direção, com destino ao coração. O mapa está amassado, até um pouco molhado. Ele tem um tanto de mim, mas não me representa, é meio cinza e bege. Falta um pouco de azul, vivo, querendo gritar.

Dos peixes que vejo, nenhum reconheço. São todos manchados, pintados, borrados, parte de um aquarelado. Eles agem como se eu não estivesse ali, passam por mim como se eu fosse apenas mais uma realidade, dessas feitas no século passado.

Velejar---Ilustrações-01

Sigo em velejo por cima das pedras. Não, elas não são duras. Bem molengas, na verdade. Indecisas. Não sabem muito bem do que são feitas. Algumas me deixam passar, outras gritam me querendo de volta, junto delas, preso.

O túnel de folhagens é denso. Eu olho a minha volta procurando alguma flor que queira dançar. Mas não adianta, estão todas no camarim, ensaiando. Só vejo folhas em forma de lenço. É tão triste, penso.

Velejar---Ilustrações-02

O barco pára, pois o vento quer me fazer uma pergunta – Para onde vai? – diz ele. Eu o respondo – Ora, vou para o meu coração. Quero sair da cabeça para arejar um pouco – mas, ele quer que eu repense. Este vento vem da mesma floresta que eu – rígida e protetora. Me acompanhou todo esse tempo, desconfiando do barco. Mas, eu logo desfaço dos medos que ele criou para mim – Se não com teu vento – esbravejo – Deixe que eu mesmo remo e me faço chegar.

Mais adiante a luz muda. Ela era fácil de lidar, mas agora quer privacidade. Deu lugar aos barulhos da noite. O matagal brincalhão e covarde, em meio à muitas risadas, me pergunta – está dormindo? – e me faz acordar. O intuito é a dúvida – Estou mesmo dormindo? – Na tentativa de achar a resposta, fiquei acordado, olhando para todos os lados, ouvindo risadas.

Foi um dia alto e gordo e nada naquele matagal me fará descansar. Deixo meu corpo aos gravetos para voar pela copa das árvores. A noite afunda e vejo no riacho meu pequeno barco afundar. Ele me pede ajuda, mas seus gritos são ocos, como os de um objeto. Sigo pra lá e o puxo de volta. Dentro dele está um achado encharcado – debaixo das tábuas mais sujas reencontro meu mapa. Gozado, agora se parece comigo. Será que ele ficou azul, ou fui eu que fiquei cinza e bege? 

Logo pela manhã, a luz incomoda meus olhos e me beija no rosto. Estou deitado na grama, ainda molhado. O riacho continua longo e agora está agitado, mas eu decido por voltar. Olhei ele de cabo a rabo, mas não, meu coração também não está por lá.

Velejar---Ilustrações-03

– Venha meu amigo barco, vamos velejar.

Texto e arte: William Lopes